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De Amélia a Dalila: A mulher na MPB


Nesta reportagem especial da UMA, você descobre como a mulher foi retratada em nossa música popular, e ainda conhece mulheres poderosas que revolucionaram a história da canção brasileira


Por Daniel Martins*

"Comigo é na base do beijo / Comigo é na base do amor / Comigo não tem disse me disse / Não tem chove não molha / Desse jeito que sou.” O refrão da canção Na Base do Beijo, de Ivete Sangalo, sucesso tocado diariamente em rádios de todo o País, representa, quase sem querer, a mudança de comportamento da mulher na sociedade brasileira. A música popular, como qualquer tipo de arte, deixa bem registrada essa evolução. Se antes a mulher era a Amélia pouco vaidosa ou a que aguentava as traições do marido por amor, hoje impera uma mulher que quer se divertir, e sabe muito bem aonde quer chegar, exemplicada pela própria Ivete e seus hits, como Cadê Dalila?

MULHER PERIGOSA

O Brasil de herança patriarcal portuguesa, com o machismo arraigado no pensamento dos primeiros colonizadores, impôs regras severas ao comportamento feminino. Desde que Pedro Álvares Cabral por aqui aportou, cada menina já nasceu com seu destino traçado: o de ser uma dona de casa recatada, uma mãe zelosa e uma esposa dedicada. É claro que, para os homens, o papel era outro, bem diferente: o de mandar nas mulheres.

Tal tipo de mulher foi cantada em verso e prosa em nossa música popular. Há pouco mais de 200 anos, na virada para o século XIX, Domingos Caldas Barbosa, com sua canção O Bicho Mulher, já apresentava a mulher como danosa, perigosa, traiçoeira, que faz uso da sensualidade para prejudicar o “ingênuo” e “bondoso” homem. Não acredita? Então veja o verso: “Quem quiser ter seu descanso / Quem sossego quiser ter / Na densa mata do mundo / Fuja do bicho mulher / Rói por dentro / Bem como a traça / É quem motiva / Nossa desgraça”.

Passado mais de um século, tudo continuava igual. Tal como a Eva, que trouxe o fruto proibido a mando da serpente, a mulher continuava um elemento perigoso. O compositor carioca Noel Rosa deu sua contribuição ao pensamento com a canção Mulher Indigesta, de 1922, que dizia: “Mas que mulher indigesta! / Indigesta! / Merece um tijolo na testa!”.

AMÉLIAS E EMÍLIAS

É claro que os compositores não falavam apenas mal das mulheres. Eles também tentaram construir um modelo feminino a ser seguido. A mulher ideal deveria ser carinhosa, perfeita, infalível, como a Emília de Wilson Batista e Haroldo Lobo: “Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar / E de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar”. Praticamente uma escrava. É claro que não podemos nos esquecer da mais clássica de todas, a Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago, que, por “não ter a menor vaidade”, era “a mulher de verdade”.

Na visão desses poetas, a mulher de verdade não deveria ligar para si mesma. Ela deveria ter seu mundo girando em torno de seu senhor, ou melhor, de seu marido. Em 1956, Chico Anysio traduziu bem a mulher cujo maior sonho era de se casar, na música Fia de Chico Brito: “De tanto piscá os oio / Já tô ficando zaroia / De tanto chamar com as mãos / Nas mãos já tenho inté bóia / Já fiz duzentas novena / Já me cansei de rezá / Meus cotovelo tá inchado / De no portão debruçá / E caso de quarqué jeito / Caso inté no militar”.

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